26 de fev de 2011

A RELIGIÃO DO CÉREBRO


MARINO JÚNIOR, Raul. A religião do cérebro: as novas descobertas da neurociência a respeito da fé humana, São Paulo: Editora Gente, 2005, 169 pp.

por Moises de Aguiar Junior — Última modificação 24/10/2007 13:21
Julio Fontana

Raul Marino é professor titular de neurocirurgia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo – Hospital das Clínicas de São Paulo –, professor adjunto de neurologia e de psiquiatria da Universidade de São Paulo, diretor do Instituto Neurológico de São Paulo (INESP) e Visiting Scientist, em neurofisiologia, do National Institutes of Health (NIH), Bethesda, Estados Unidos. Marino estudou e trabalhou com os mais renomados pesquisadores da área, dentre eles estão os professores Walle H. Nauta e Paul D. Maclean.
O livro que passo a resenhar pretende ser uma continuação de um trabalho anterior de Marino publicado na década de 1970 com o título Fisiologia das emoções. Esta obra foi uma das primeiras que abordaram a fisiologia do sistema límbico em nosso meio. O atual anseia completar os conhecimentos básicos lançados pelo anterior, relacionando-os às funções mais superiores, ou como o autor prefere chamar, “sublimes”, do cérebro humano.
O livro de Marino tentará demonstrar o que já é, de longa data, do conhecimento de neuropsicólogos e de muitos neurofisiologistas: as experiência subjetivas de nossa mente e de nossa consciência não são apenas o resultado de erros de nossas emoções ou de pensamentos aleatórios. Segundo o autor, “nosso intelecto, nossa memória, nossa afetividade, nosso aprendizado, nossas intuições, nossas motivações religiosas, nosso estado de espírito e o mundo de nossas emoções podem estar associados a eventos neurológicos observáveis, como parte de nossa função cerebral normal.” (p. 13) À primeira vista achei que Marino era mais um fisicalista, entretanto, com o decorrer da leitura percebi estar errado.
Dois pesquisadores de renome internacional exercem, a meu ver, as maiores influências sobre o pensamento de Marino. São eles: John Eccles e Roger Penrose. O primeiro foi um dos neurocientistas mais importantes do último século. Ganhador do Prêmio Nobel de Fisiologia em 1963 por ter sido o primeiro a registrar a atividade elétrica do corpo celular de um neurônio isolado dentro de seu próprio citoplasma. Eccles, afirmou, em 1994, que deve haver uma interação entre a alma e o cérebro. Essa interação, segundo ele, seria mediada por uma entidade especial, a qual denominou de psychon, cujo funcionamento deveria ser ao nível das sinapses entre os neurônios. O outro, Roger Penrose, matemático e físico britânico, em seu livro The emperor’s new mind [A mente nova do imperador] lançou um olhar pelo vasto panorama da ciência moderna e chegou a conclusão que esse conhecimento possivelmente não tinha meios de explicar o mistério supremo da existência: a consciência humana. A chave para a consciência, especulava Penrose, poderia estar escondida na fissura entre as duas principais teorias da física moderna: a mecânica quântica e a relatividade geral. Marino explica mais detalhadamente que Penrose (e Hameroff) não acreditam que os fenômenos da consciência possam ser explicados apenas neurobiologicamente, no plano dos neurônios e das redes neurais. Acham que a chave da consciência e dos pensamentos repousa em eventos quânticos, no plano das diminutas estruturas proteicas – os microtúbulos – situadas no interior dos neurônios, estruturas essas que também se encontram em todas as células do organismo e têm outras funções, incluindo a mediação na divisão celular. Nos neurônios, são responsáveis pelo transporte de proteínas ao longo dos axônios, nos sentidos descendente e ascendente e em relação aos dentritos. Penrose e Hameroff têm demonstrado que essas estruturas funcionam num estágio subatômico, mediando funções quânticas, com uma sensibilidade particular aos anestésicos. Isso sugere que elas modulam a consciência, sendo afetadas sobretudo por anestésicos hidrofóbicos, que causam perda de consciência.
Marino, no décimo capítulo do livro, utiliza as descobertas de Penrose e Hameroff para demonstrar o pretendido por Eccles, a independência da mente com relação ao corpo. Marino, portanto, se afirma como dualista. Abre-se assim, espaço para a religião em seu pensamento. O argumento mais interessante usado pelo autor, sob o meu ponto de vista, é o de que o nosso corpo se renova a cada ano. Na verdade morremos e nascemos a cada ano. Isso seria sentido por nós se não fosse a nossa memória. Memória aqui tem um significado todo especial. Estaria próximo talvez do conceito de durée de H. Bergson. Esta memória seria inexplicável se a fonte que a sustenta não transcendesse a matéria, pois, como mostra Marino, o nosso cérebro está em constante renovação. “Nosso cérebro alberga cerca de 100 bilhões de neurônios; destes, 20 bilhões irão constituir o córtex cerebral – nosso ‘telhado pensante’. Entretanto, milhares de neurônios morrem diariamente, não sendo verdadeiro dizer que morremos com a mesma quantidade de neurônios com que nascemos. Essa morte neuronal é compensada pela renovação contínua de lípides e proteínas que constituem as mebranas celulares, o que leva de alguns dias a algumas semanas para acontecer.” (p. 112)
Após demonstrar que a existência da mente é bastante provável, Marino se empenha em demonstrar que esta sobrevive à morte corporal. Nesses dois pontos verifica-se nitidamente a influência de Eccles sobre o autor. Como Eccles, Marino acredita na imortalidade da alma. Os argumentos são semelhantes, porém, ele também se utiliza dos conhecimentos de Penrose, e propõe que “quando morremos, nossa consciência deixa de ter o aspecto de partículas para assumir o eterno aspecto de ondas.” (p. 115) Segue a teoria da continuidade de Van Lommel a qual afirma que “se a função do cérebro fosse perdida, como na morte clínica ou cerebral, as memórias e a consciência continuariam a existir, perdendo-se apenas a recepção pela interrupção da conexão.” (p. 116) Nas palavras de Marino, “a consciência pode ser experimentada independentemente do funcionamento cerebral, o que poderá futuramente acarretar uma enorme mudança nos paradigmas da medicina, surgindo a possibilidade de se admitir que a morte, assim como o nascimento, constitui meramente a passagem de um estado de consciência para outro.” (p. 117)
Existem muitas outras informações no livro de Marino que são relevantes não apenas para os teólogos como também para os filósofos, pois como alerta Eccles, “os filósofos que apresentam teorias fisicalistas do problema corpo-mente, tais como a teoria da identidade ou a teoria do estado central deveriam basear suas filosofias nos melhores conhecimentos científicos disponíveis sobre o cérebro. Infelizmente, eles se contentam com informações grosseiras e antiquadas que, freqüentemente, os levam a abraçar idéias errôneas.” [1] A teologia e a filosofia, no Brasil, devido ao esforço de uns poucos nomes, estão entrando em diálogo progressivo com as ciências exatas. Esse é um movimento irreversível realizado por essas áreas do saber. Teólogos e filósofos que não se empenharem em realizar esse diálogo ficarão cada vez mais defasados e destituídos de importância perante um cenário, onde a metafísica não morreu como alguns profetizaram, mas se tornou ciência, mesmo que irônica, segundo denominação do ex-editor da revista Scientific American, John Horgan. [2]
Há algumas deficiências no livro de Marino. Acho que ele poderia ter desenvolvido mais detalhada e profundamente a fisiologia do cérebro, mesmo que isso demandasse um aumento considerável no volume da obra. Os capítulos teológicos deveriam ser enriquecidos com conhecimentos advindos de sistemas teológicos mais atuais. Nota-se a ausência de nomes como Wolfhart Pannenberg, Paul Tillich e Jürgen Moltmann. O capítulo que conta como o nosso conhecimento sobre o cérebro se desenvolveu na história está demasiadamente resumido.
Não obstante, é recomendável a leitura do livro que só vem a enriquecer o conhecimento dos nossos teólogos e filósofos e, inclusive, mostra a estes, como essas áreas do saber irão se confrontar com os conhecimentos oriundos das ciências exatas. Creio que esse livro seja o primeiro de um série de outros que façam um estudo transdisciplinar de temas os quais eram originalmente tidos como do domínio teológico e filosófico.

POPPER, Karl e ECCLES, John. O eu e seu cérebro, Campinas/Brasília: Papirus/UNB, 1991, p. 283.

HORGAN, John. O fim da ciência: uma discussão sobre os limites do conhecimento científico, São Paulo: Companhia das Letras, 1998.


Abraços e Luz,
Mãe Solange de Iemanjá


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